terça-feira, 3 de julho de 2007

Mamadeira: uma história de percalços


Parece incrível, mas o hábito de alimentar artificialmente os bebês já vem de longa data. Frascos, copos e utensílios variados, muitas vezes bizarros, foram utilizados com essa finalidade, antes da invenção da mamadeira propriamente dita. A história da amamentação artificial é documentada num pitoresco site britânico http://www.babybottle-museum.co.uk/intro.htm.
O museu virtual ‘babybottle’ revela que, ao longo de 400 anos de história, as mamadeiras evoluíram em termos de material e de desing. Na Idade Média, por exemplo, chifres de bovinos com couro macio na extremidade, imitando tetas ou mamilos, eram usados para alimentar bebês. No século 17, recipientes de couro, madeira ou metal eram usados com a mesma finalidade. A maioria destes primeiros objetos de amamentação parecia uma garrafa, com um parafuso na parte superior imitando um mamilo redondo e rígido.
No entanto, os resultados dessas invenções eram freqüentemente desastrosos já que pecavam num aspecto fundamental: a higiene. Como se tratavam de peças inteiriças, não modulares, apenas adaptadas à finalidade da amamentação, elas não contavam com abertura frontal, lateral ou superior. Isso significa que não possibilitavam limpeza interna, comprometendo amplamente a higiene e a saúde das crianças.
Aliado a isso, nos séculos passados, não havia um cuidado com o leite, que era muitas vezes contaminado e muito menos uma noção das necessidades nutricionais dos bebês. Como resultado, havia um altíssimo índice de mortalidade entre crianças com menos de dois anos.
Entre os séculos 18 e 19, surgiu a cerâmica, mas as mamadeiras feitas desse material também eram difíceis de limpar. Esse cenário melhorou um pouco com a invenção de frascos fundidos no mesmo formato. O alimento era derramado na abertura na parte superior e, colocando-se o polegar sobre essa mesma abertura era possível regular o fluxo do leite. A outra extremidade era preenchida com um pedaço pano ou couro de cabra-montesa, sempre preservando a idéia de ‘teta’ amarrada no bocal de vidro.
A principal descoberta da década de 1840 foi a borracha vulcanizada, que servia de bico. O cheiro desse material era muito forte, mas alguns anos depois, foi produzida, em larga escala, uma borracha mais adequada para essa finalidade.
As mamadeiras começaram a ser produzidas em massa, a maioria com forma do banjo, com um tubo interno de vidro unido a uma longa borracha preta, um protetor bucal e um bico de borracha. Como eram muito difíceis de limpar, estes frascos foram condenados abertamente pelos doutores do tempo. Mesmo assim milhares dessas mamadeiras foram vendidas até a década de 1920. Esses modelos possibilitavam que o bebê se alimentasse sozinho.
A grande descoberta que veio a seguir foi o alimentador de duas extremidades, criado por Allen e de Hanbury em 1894. O projeto envolvia um bico em uma extremidade e uma válvula no extremo oposto. Isto permitia um fluxo constante de leite, e principalmente, permitia a limpeza da mamadeira, tornando o objeto um enorme sucesso. Muitos outros projetos similares vieram posteriormente, mas tal era o sucesso do Allenbury, que o modelo 1900 foi sendo aprimorado e vendeu muito bem até os anos 50.
Na década de 50, foi realizada a introdução do popular Pyrex – modelo de mamadeira comprida e estreita, muito parecida com as mamadeiras atuais. Nos EUA, esse modelo estava disponível desde 1920, mas o Mercado britânico só o conheceu em 1960.
De lá pra cá, as mamadeiras ganharam cores, gravuras, tamanhos e formas diferentes, e são feitas de plástico ao invés de vidro. Há modelos disponíveis para todos os bolsos e gostos. Os bicos também são variados, de silicone e borracha.
Seja qual for sua cara, as mamadeiras são muito nocivas às crianças. Elas podem provocar o desmame mãe-bebê, podem ocasionar problemas maxi-bucais, e, no caso de famílias de baixa renda, que não têm acesso à água potável para uma adequada esterilização do produto, podem ocasionar diarréia e desnutrição.
Tamanha é a oferta de mamadeiras e bicos que foi criada uma norma para combater a propaganda abusiva por parte dos fabricantes (ver IBFAN: http://www.ibfan.org.br/legislacao.html).


Fonte: http://www.babybottle-museum.co.uk/
Tradução: Sabrina Feldman, jornalista associada ao Matrice

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quinta-feira, 31 de maio de 2007

PRIMEIRO ATO

"Use a minha foto, se ajudar"
disse esta mãe no Hospital de Crianças de Islambad.


Foto: UNICEF

"Um bebê morre a cada 30 segundos por causa de uma alimentação artificial nao segura. "

A foto acima ilustra a ocorrencia de uma das fatalidades que ocorrem por causa de uma alimentação com mamadeira mal dada.

Os bebês são gêmeos: o bebê com a mamadeira é menina - ela morreu um dia depois de ter tirado esta foto - mas o irmão dela foi amamentado e sobreviveu. Disseram para a mãe que ela não teria leite suficiente para amamentar os dois filhos, logo ela amamentou o filho e alimentou a filha com mamadeira. Mas é provável que ela conseguisse amamentar os dois, visto que quanto mais o bebê mama, mais leite a mãe produz"

fonte: IBFAN

LUTO DA MATRICE
Neste mês de Maio sofremos uma perda. Mais uma vez os interesses, não tão obscuros mas nocivos, da industria do leite sobrepuseram ao interesse da coletividade. Como? Inovaram o mundo jurídico com a Lei nº 11.474, de 2007. O que essa lei faz? O abrandamento dos avisos nas embalagens destes produtos, mostram a tendência da total banalização do aleitamento materno, e o fortalecimento da industria de LEITE!!! Ficando claro que a retirada do rótulo só não se deu porque o nosso querido Código do Consumidor proibe a não informação/alerta!!

Perigo das entrelinhas
por Sabrina Feldman

A medida provisória 350, hoje LEI Nº 11.474, DE 15 DE MAIO DE 2007 , que trata do Programa de Arrendamento Residencial, reserva uma surpresa àqueles que se dispuserem a lê-lo integralmente. É que deputados ligados a produtores de leite conseguiram "escamotear" um artigo que trata de mudanças nas embalagens de leite. Pela lei antiga, LEI Nº 11.265, DE 3 DE JANEIRO DE 2006, os rótulos das embalagens de leite e de bebidas lácteas deveriam trazer uma advertência do Ministério conforme o tipo de produto: "O Ministério da Saúde informa: o aleitamento materno evita infecções e alergias e é recomendado até os 2 (dois) anos de idade ou mais" ou "O Ministério da Saúde informa: após os 6 (seis) meses de idade continue amamentando seu filho e ofereça novos alimentos".

O artigo "plantado" da Lei prevê que as advertências do ministério sejam substituídas por um simples aviso e em local menos visível. Em vez de "o Ministério da Saúde adverte" constaria "aviso importante".
Os deputados concluíram a votação da MP na sessão na quinta-feira, 19 de maio, derrubando as emendas feitas pelos senadores à proposta, que vetava a inclusão do artigo. A medida seguirá para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O partido PSOL anunciou que entrará com mandato de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a anulação da votação na Câmara da medida provisória 350.
Os desdobramentos dessa manobra política são evidentes. Há um esforço desmedido para que os produtores de leite obtenham mais lucro e para que os produtos lácteos destinados às crianças sejam cada vez mais consumidos, contrariando as recomendações sobre o aleitamento materno.
E não é só no Planalto que existem forças a favor dos NANs, NINHOs e por aí vai... Em um carta endereçada à revista Cláudia em 2006, Fernanda Young questiona os benefícios do amamentação e faz uma aberta apologia aos leites artificiais, argumentando que as crianças de hoje em dia são muito "modernas" e que mamar no peito é ultrapassado.
Vale lembrar que inúmeras pesquisas comprovam que a criança amamentada no seio até, pelo menos os primeiros 6 meses de vida e, na melhor das hipóteses, até dois anos ou mais, tem menos risco de adquirir diabetes, pneumonia e otites. Estudos também mostram que as mulheres que amamentam podem ter um risco menor de câncer de mama e ovário. Além disso, o leite materno é grátis, seguro e protege contra infecções.
A IBFAN (Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar - Internacional Baby Food Actions Network), rede que trabalha para a melhoria da nutrição e saúde infantis (http://www.ibfan.org.br/), atua também para sensibilizar as autoridades internacionais (especialmente OMS e UNICEF) e nacionais quanto à implementação do Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno e das Resoluções e ele relacionadas.
Em seu site, a rede faz um alerta assustador: Segundo o UNICEF, "Invertendo o declínio da amamentação, 1,5 milhão de vidas poderiam ser salvas por ano", já que a cada 30 segundos ocorre uma morte infantil desnecessária, vítimas de diarréia, desidratação e má-nutrição, resultado de uma alimentação mal feita com mamadeira. Segundo a IBFAN, a água misturada com leite infantil em pó é, às vezes, perigosa, podendo iniciar infecções que causam diarréia.
Para evitar o aumento descontrolado do consumo de leite aritificial por crianças e bebês, em 1981, a Assembléia Mundial da Saúde adotou o Código Internacional de Mercadização de Substitutos do Leite Materno. A Assembléia é o corpo que determina as políticas da Organização Mundial da Saúde.
O Código Internacional procura proteger todas as mães e todos os bebês contra práticas de mercadização inapropriadas por companhias de leite infantil e produtos ligados a ele. Ele proíbe toda promoção de substitutos do leite materno, mamadeiras e bicos, e procura conseguir que todas as mães recebam informações exatas de profissionais de saúde. Resoluções posteriores da Assembléia Mundial da Saúde clarificam e aumentam o Código Internacional.
A saber, é proibido para Companhias de Alimentos Infantis:
* Fornecer gratuitamente leite infantil aos hospitais;
* Promover os seus produtos ao público ou aos profissionais de saúde;
* Colocar fotos ou desenhos de bebês sobre os rótulos de leite infantil, mamadeiras e bicos;
* Dar brindes ou presentes às mães ou aos profissionais de saúde;
* Dar amostras aos pais; * Promover alimentos infantis e bebidas destinados a bebês abaixo de 6 meses.
* Os rótulos devem ser escritos em um idioma entendido pela mãe e devem incluir um aviso de saúde proeminente.
A IBFAN também possibilita que mães de todo o mundo façam denúncias que contrariem o Código Internacional de Mercadização de Substitutos do Leite Materno.
Para isso, devemos todas ficar atentas quando formos ao supermercado, à farmácia da esquina e até em algum centro de saúde. Para mais informações, acesse: http://www.ibfan.org/site2005/Pages/article.php?iui=5&art_id=305&articulo_id=645

Um abraço, Equipe Matrice
TEXTO DE:
Sabrina Feldman jornalista e lactivista, associada da Matrice

link para informações sobre a MP350:


link para fernanda young

link para página Ibfan de como as maes podem ajudar no monitoramento

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